Assistir à França e, principalmente, ao Zidane jogar me dá uma azia gigantesca.
Haja antiácido, viu?
Eis o texto!
Disse
o poeta Fernando Pessoa:
“O
poeta é um fingidor.
Finge
tão completamente
Que
chega a fingir que é dor
A
dor que deveras sente.”
Autopsicografia, ou a primeira estrofe desse
belo poema, serve como pano de fundo para o que aconteceu no Estádio Olímpico
de Berlim. Mas o que Fernando Pessoa tem a ver com futebol? A princípio, nada.
Fernando morreu muito tempo antes do jogo de hoje, e escreveu esse poema tendo
tudo em mente, menos o futebol. Hoje, porém, o poema serve para descrever um
time e um jogador, quais sejam: França e Zinedine Zidane. Além disso, o título
deste texto é dedicado a ambos!
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Aquele ar "blasé" de quem já tinha visto a enganação francesa! Aff! |
Vamos
ao mais fácil: a seleção francesa. Há exatos 22 anos, desde a Eurocopa de 84, a
seleção francesa vem enganando o mundo, que acredita cegamente no futebol que
eles apresentaram por mais de duas décadas. No entanto, a França finge que joga
futebol, e finge tão completamente que acredita que é futebol o que deveras
joga. E o que é pior: uma outra seleção acredita mais do que a própria França –
o Brasil, vítima em três oportunidades desse embuste coletivo. Em 86, perdemos
nos pênaltis; em 98, perdemos em campo; em 2006, bem... deixa pra lá, não é,
Roberto Carlos? Em 22 anos, pode-se contar nos dedos de uma mão os jogos em que
a França realmente não “fingiu” e jogou um bom futebol! O jogo de hoje não foi
e certamente não será lembrado como um desses! E por quê?
Porque
Zinedine Zidane estava em campo. Se a França é o poema, Zidane é seu autor. Eleito
três vezes o melhor jogador do mundo, campeão com a França em 98, Zizou foi da
glória ao ocaso em uma cabeçada! Caminhava para ser eleito o melhor jogador da
Copa 2006. E, por conta de uma cabeçada, caminhou envergonhado para o
vestiário.
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Um momento verdadeiro de um pseudo-craque! |
Não
é a primeira vez que isso acontece. Zidane é temperamental tanto quanto é bom
jogador. Eu disse apenas bom. O craque decide o jogo, aparece nos momentos
fundamentais de uma partida. Essencialmente, em sua carreira, dois foram os
jogos em que Zidane
se mostrou decisivo: contra o Brasil em 98 e, vejam vocês, novamente contra o
Brasil em 2006. Vou ser um pouco mais condescendente e abrir uma exceção: no
jogo de hoje, ele também foi decisivo. Converteu o pênalti para a França e agiu
como um touro indomável em direção ao toureiro! Muitos outros atletas sofreram
com a destemperança de Zidane em vários momentos. Ele é o jogador francês com
mais expulsões em Copa – com a de hoje, duas! Em três copas disputadas, foram
seis cartões amarelos e dois vermelhos. E cinco gols. Ou seja: Zidane fez muito
mais faltas violentas do que gols em Copas. E hoje, em plena final de Copa do
Mundo, desceu envergonhado a escadaria, junto com sua obra enganadora, ou
melhor, sua seleção.
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Isso é o que valem Zidane e a França! |
Para o bem do futebol que não “finge”, Zidane deixa as quatro linhas. Para o bem do futebol mundial, a França não foi campeã. A seleção francesa sempre pertenceu ao segundo escalão do futebol mundial, e é para lá que ela vai retornar a partir de amanhã, de onde nunca deveria ter saído. Mas alguém esqueceu de avisá-los em 84, e eles acreditaram que era futebol o que eles deveras jogavam. E, cá entre nós: fingiram muito bem, porque fundamentalmente nós, brasileiros, acreditamos e muito! Au revoir, Zidane! Au revoir, Les Bleus!